Olá Divas! Hoje é um dia feliz aqui no blog: tem inauguração de uma seção nova: Sessão de Cinema! Para minha (nooossa) alegria, fui recentemente convidada a assistir a estreia de alguns filmes e, é claro, vou dividir tudo aqui com vocês! Lá no comecinho do Um Dia Serei Diva eu dizia que o intuito do blog era ensinar "o caminho das pedras" para quem quer ser diva, e a cultura e as artes certamente fazem parte deste processo. Aliás, cinema é uma área na qual tenho andado "atrás do prejuízo", vendo filmes que deveria já ter visto, mas não vi. Então, vamos juntas neste caminho!
O filme que inaugura esta nova seção é Camille Claudel 1915, do diretor Bruno Dumont. A produção, francesa, conta uma passagem da história da artista também da França, a escultora Camille Claudel.
Foto de Camille Claudel aos 20 anos
Apesar de estar estudando História da Arte, e mesmo antes disso saber quem foi Camille Claudel, eu desconhecia a parte da vida dela retratada no filme, uma semana do ano de 1915. Voltando um pouquinho no tempo, me lembro de ter ido com a turma da escola, em 1997, a uma exposição de obras de Camille no Parque do Ibirapuera. Tentei achar fotos, mas como a internet era apenas um bebê nesta época no Brasil, encontrei apenas este artigo, dizendo que a mostra foi vista em São Paulo por mais de cem mil pessoas, e passou também pelo Rio de Janeiro e por Belo Horizonte. Nenhuma imagem... Me lembro de ter comprado um cartão postal por ter gostado bastante do que vi, mas obviamente 16 anos (!) depois, não faço ideia de onde ele esteja...
Camille Claudel foi aluna e amante do também escultor Auguste Rodin. A foto acima nada tem a ver com o filme; é da peça estrelada por Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore, que ficou por cerca de um ano em cartaz no teatro do MASP e eu não fui ver. =( Agora a peça excursiona pelo país, então, se for para a sua cidade e você tiver a oportunidade de assistir, não a desperdice como eu! Como não achei nenhuma foto de Camille e Rodin, uso a da peça para ilustrar um pouquinho da história da escultora, que, como eu já disse, trabalhou com Rodin em seu ateliê.
Camille Claudel: Busto de Rodin
Só que o francês tinha outra namorada, Rose Beuret, e nunca a deixou para ficar com Camille. Me lembro de, na exposição do Ibirapuera, ter gostado de Camille logo de cara ao saber dessa história, como em um livro em que você quer que o rapaz deixe a outra moça e fique com a heroína, pela qual torcemos. Mas isso nunca aconteceu. Quando Camille percebe que Rodin nunca vai se casar com ela, a artista decide se afastar dele.
Camille Claudel: Paul Claudel à treize ans (Paul, irmão da artista, aos 13 anos).
Após deixá-lo, Camille continua a produzir sozinha, mas mantém com Rodin uma relação de amor e ódio, que a leva a alguns transtornos psicológicos. Como não li nenhuma biografia "oficial" da artista, não posso opinar até que ponto as acusações que recaíram sobre ela são verdadeiras: esquizofrenia, paranoia, loucura. Se hoje uma mulher nas condições dela já é mal vista (foi amante, nunca se casou, era artista, vivia sozinha...), imagine no século XIX.
Camille esculpindo a obra Sakountala
E é neste ponto, quase vinte anos depois que Camille se separou de Rodin, que chegamos ao tempo do filme: 1915. E por isso a obra se torna tão interessante, porque não aborda o romance dos dois, como a peça de teatro, o filme de 1988 com Gerard Depardieu e Isabelle Adjani e outras produções já feitas sobre o tema. E, sim, o que aconteceu com a pobre Camille depois disso.
Em 1913, uma semana após a morte de seu pai, que era seu porto-seguro, Camille foi internada pela família. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, ela foi transferida para Villeneuve-lès-Avignon, que é onde o filme se passa. Quem interpreta Camille Claudel é a atriz Juliette Binoche, e eu fiquei pasma comigo mesma ao perceber que nunca tinha assistido a um filme dela!!! Sendo este o primeiro, garanto que ela dá um show de interpretação. Este filme leva com todos os méritos a classificação de drama; é denso, é profundo, é triste. (Mas é lindo e muito bem feito, não desista de assistir!). A atriz aparece sem maquiagem, com a pele envelhecida, bem diferente do que costumamos ver nos tapetes vermelhos.
Logo nas primeiras cenas é possível perceber que Camille era uma mulher cheia de sofrimentos e angústias, mas que também é nítida a diferença entre a condição dela e a das outras internas, que mal falam, ou falam sozinhas, gritam, se debatem, na imagem mais clara que temos de loucura, de total demência. É um terrível martírio para Camille suportar a convivência com elas, longe de pessoas com quem possa conversar normalmente, longe de sua arte, de seu ateliê.
O fio condutor do filme é a espera de Camille pela chegada de seu irmão Paul, já que ela foi informada de sua visita. Assim a tortura dos dias no manicômio parecem um pouco (só um pouco) menos terríveis, já que a artista alimenta a esperança de que o irmão possa perceber que ela não é como as outras, não está louca, e pode perfeitamente sair de lá e voltar a conviver com a família.
O irmão de Camille, o escritor Paul Claudel (Jean-Luc Vincent) se mostra um homem extremamente religioso, cuja vida parece dominada e dedicada pelo fervor do amor a Deus. Eu não vou contar o que acontece (aliás, isso é uma coisa que vocês jamais vão ver aqui no Sessão de Cinema, porque se tem uma coisa que eu odeio é que alguém me conte o final de um filme), mas posso adiantar que, para alguém que fala tanto de Deus e de sua palavra, Paul não demonstra na prática a mesma caridade para com a irmã. E esta foi uma das coisas que mais me entristeceu no filme porque, afinal, falar de Deus é fácil, colocar a palavra em prática é que é importante, né? #desabafo Kkk!
Camille Claudel: La Valse (A Valsa)
Como eu já disse, é um filme denso, angustiante, porque dá vontade de nós mesmos tentarmos fazer algo por aquela mulher, e ninguém faz; tem longas cenas de silêncio (não leve seus primos adolescentes, hehehe), mas vale muitíssimo a pena assistir. Sabe quando o filme acaba e fica todo mundo meio paradão, pensando? Minha reflexão foi sobre o quanto Camille ainda poderia ter vivido e produzido fora daquele lugar, e também quantas pessoas foram incompreendidas e tratadas como loucas em toda a história... Bem triste.
Eu fiquei com muita vontade de saber mais sobre a história da artista, e recomendo que você assista para saber o desfecho. Se infelizmente não estiver em cartaz na sua cidade, procure saber mais sobre Camille também. Achei este site aqui, que é bem legal, mas está em francês: http://www.camilleclaudel.asso.fr
O filme já estreou. Procure saber a programação em sua cidade. Em São Paulo, assisti no Cinesesc, na Rua Augusta, e agora está em cartaz no Cine Livraria Cultura, na Avenida Paulista (duas salas ótimas, aliás).
Se assistir, não deixe de vir me contar o que achou! Agora, deixo com vocês mais dois materiais: o trailer e uma entrevista do diretor Bruno Dumont e de Juliette Binoche. Só a li após assistir o filme, e descobri uma coisa interessantíssima: as internas do filme eram pessoas reais com problemas mentais. Isso explica porque passei o filme todo dizendo a mim mesma: "cara, essas atrizes são muito boas, como conseguem interpretar doentes mentais tão bem assim?" Rsrs!
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ENTREVISTA BRUNO DUMONT E JULIETTE BINOCHE
Bruno Dumont: A origem do projeto é uma mensagem telefônica de Juliette Binoche. Eu estava filmando “Hors Satan” e recebi uma mensagem longa dela, que eu nem conhecia, dizendo que queria filmar comigo. Bom, eu achei imprudente da parte dela me deixar uma mensagem. Durante um mês eu fiquei pensando ‘mas o que eu poderia fazer com ela?’, porque eu gosto muito de trabalhar com atores, mas geralmente, eu não consigo pensar no que fazer com eles...
Juliette Binoche: Algumas semanas se passaram entre minha ligação e o momento do nosso encontro. Quando nós nos vimos, eu tinha a ideia de um tema para um filme e, na verdade, ele tinha dito que queria filmar uma mulher em sua solidão, numa casa.
Bruno Dumont: O acaso fez com que eu lesse um livro sobre a vida de Camille Claudel, do momento de sua internação, e, na verdade, Juliette e Camille tinham a mesma idade. Isso me deu uma luz e eu disse: ‘É isso’! O que mais eu gosto é que ninguém sabe nada da vida dela, nada sobre sua internação, com exceção dos boletins médicos. E a ideia de escrever um roteiro do nada me agrada. Fazer um filme com alguém que passa o tempo sem fazer grande coisa me agrada, cinematograficamente. E ao mesmo tempo eu tinha muito interesse em fazer um filme sobre a internação e sobre o ócio. Portanto, a ideia de filmar três dias da vida de Camille Claudel se tornou, com todos os elementos que eu tinha, o diário, etc, uma escolha na qual eu acredito muito, ou seja, que é possível falar de tudo a partir de algo que é secundário. Não é o fato de contar toda a vida de alguém. Em alguns segundos, pode-se dizer a verdade.
Juliette Binoche: Ele me disse ‘É uma mulher que não faz nada, que é neutra’, uma de suas palavras preferidas e, portanto, a seguiremos nesse seu ‘nada’, era o que eu queria dizer. Mas é evidente que para um ator há uma vida interna intensa que é trazida à tona por eventos aparentemente insignificantes. Há uma intensidade enorme dentro dela e há também a vida regrada dentro de um hospício.
Bruno Dumont: A ideia era filmar com pessoal que de fato sofriam de problemas mentais, o projeto era esse. Então era necessário encontrar um lugar no qual coexistissem cenário e proximidade com pessoas doentes, como um hospital, com o qual faríamos um acordo com os médicos para que os pacientes participassem do filme. Nunca imaginei o filme de outra forma. Quando encontrei a equipe médica, eu os escutei bastante, não cheguei dizendo ‘Olha, sou eu, estou fazendo um filme, etc’. Eu aceitei muitas coisas sobre a realidade dessas mulheres. Eu não tentei manipulá-las para fazer algo diferente.
Juliette Binoche: A regra inicial, para evitar surpresas desagradáveis no meio das filmagens, já que criamos um mundo para filmar lá, mesmo que irreal, era que todos me chamassem de Camille. Durante as filmagens todos me chamavam de Camille porque assim era mais simples, caso os pacientes nunca improvisassem uma fala.
Bruno Dumont: Eu não tive a boa ideia de colocar as enfermeiras para interpretar as irmãs desde o começo. Mas e se algo acontecesse durante alguma tomada? O que eu ia fazer? Então eu decidi junto com meu assistente, Claude, que as enfermeiras fariam os papéis. E elas aceitaram. De repente, isso que criou um corpo, há uma coerência. Elas tomaram parte e acredito que as autoridades médicas também porque a equipe deles estava presente também. Nós não somos profissionais da saúde, então, conversar com eles todos os dias, vê-los ali, presentes, foi muito bom. Além disso, elas nos ajudaram, criaram e participaram da mise-en-scène.
Coube a mim assimilar tais personagens que entraram para o filme, Céline, Alexandra, Rachel, que no final tornaram-se personagens, até porque eu não tinha ideia de personagens. Então, Jéssica é Jéssica, eu não tenho comentários a fazer sobre ela. Não tenho direções para dar a ela. Quando eu filmo Rachel, quando filmo Jéssica, quando filmo Christiane, eu não tenho o que fazer, eu posiciono e ligo a minha câmera... Eu faço simplesmente isso, não tem blá blá blá, porque elas ofereceram algo de inimaginável, que nenhum ator pode fazer, é impossível, e eu precisava disso justamente para tentar exprimir o entorno em que Camille Claudel se encontrava, do qual ela falava. Porém, é Christiane, Myriam e Jéssica, doentes mentais contemporâneas, que falam algo de antigamente, que continua presente, frente a que não há muitos comentários a fazer e de coisas a dizer. Não há nada a dizer.
Eu não sabia nunca o que ia acontecer e foi isso que me interessou. A cada momento em que dizia “ação”, algo de imprevisto iria acontecer, um imprevisto bem-vindo, na verdade necessário num trabalho em que tudo deve ser previsto. Portanto, há uma necessidade imperiosa de ter uma decupagem estrita, muito rigorosa, mas que pode acolher o imprevisto. E para que o imprevisto retorne, ele precisa entrar em lugares precisos.
Eu acredito que o filme leva o espectador para a realidade de um internamento, sem palavras, porque são os gritos, a dor, o tempo, o tédio que são formas escancaradas da doença mental, não através da palavra, mas da emoção... Ao mesmo tempo, Paul e Camille são intelectuais, personalidades bem capazes e potentes na elocução e na maneira de criar. Isso está nas cartas de Camille e na obra de Paul. Eles têm uma força para ir às profundezes de seus seres que é absolutamente excepcional, então o filme foi construído sobre a amplitude de Camille, sobre a extremidade de sua dor, quero dizer que ela interpreta as cenas de atormento de maneira muito, muito... Quase expressionista, mesmo puxada para o fundo. Mas ela vai em direção à fala. Quero dizer que sua fala existe nas cartas, há uma necessidade, mesmo para Juliette, de se dilacerar, de se abandonar, mas ao mesmo tempo, é necessário retornar ao texto, então, em um momento certo, é preciso falar.
Juliette Binoche: Bruno me entregou as cartas de Camille e me disse que eu precisava me apossar delas como se fossem minhas, então, a partir daí, eu comecei a reescrever um pouco, de uma maneira mais oral, e colocando aqui e ali, outros momentos, outras cartas de Camille, e enviei para ele por e-mail, para provocá-lo, para saber se era esse o caminho que ele queria seguir, porque ele havia sido até mesmo bem alusivo e ainda por cima ele não me deu nenhum roteiro e eu estava no vazio. E ele me disse: ‘Não é nada disso. Você suprimiu tal palavra, tal frase... Eu quero que você improvise.’ E eu questionei se ele queria que eu fosse mais precisa e ao mesmo tempo improvisasse. E ele disse: ‘Exatamente. É isso!’.
Bruno Dumont: Eu não posso colocar na boca de Camille Claudel, do meu ponto de vista, coisas que ela não disse, e isso me colocou um problema. Mas ao mesmo tempo, escutar um ator recitando me colocava um problema também. Eu brigo com os atores para que eles não recitem, e isso é difícil. Quase nunca é fácil para eles porque não estão acostumados, são intérpretes, então eles precisam de um texto para interpretar, mas quando não há mais texto, eles ficam desamparados.
Juliette Binoche: O desafio desse filme é que estamos todos em silêncio e que há dois ou três momentos de fala intensa, como se todas as palavras que ela não conseguiu expressar durante todo o filme saíssem de uma vez só. Eu engoli as quatro páginas datilografadas e depois chegou a cena com Paul e Bruno suprimiu a maior parte do texto. Ele queria que eu improvisasse e eu tentei como pude. Não é fácil porque eu não estava acostumada com isso, mas eu acho que o desafio é genial.
Bruno Dumont: Eu não preciso que a atriz esteja perfeitamente colocada num plano. Mas ela pode querer isso, então eu preciso explicar... Juliette é muito participativa e ela adora isso, mesmo que se sinta desestabilizada, aliás, desestabilizar uma atriz funciona bem. Quero dizer que podemos aceitar a deficiência de alguém que tem uma personalidade psicologicamente frágil e atormentada. Mas ao mesmo tempo, ela é atormentada também por sua dificuldade de interpretar certas cenas. Isso cria um tormento, então isso alimenta a personagem Camille e adorei isso.
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Beijos,
Fotos: Divulgação Califórnia Filmes (filme); Wikipédia (Camilla aos 20 anos); Association Camille Claudel (escultuas); Reprodução (Peça Camille e Rodin).













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